Como destaca Ernesto Kenji Igarashi, criador do Grupo de Armamento e Tiro da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo, o treinamento de tiro evoluiu muito nos últimos anos, principalmente com o avanço das técnicas operacionais e o aumento da busca por preparo mais realista. Mesmo assim, muitos erros continuam aparecendo justamente nos fundamentos mais básicos. Em diversos casos, operadores treinam velocidade, movimentação e cenários complexos sem consolidar habilidades essenciais que sustentam qualquer desempenho consistente.
Saiba mais abaixo!
Por que fundamentos básicos continuam sendo negligenciados?
Existe uma tendência natural dentro do treinamento operacional de valorizar exercícios mais complexos e visualmente impactantes. Movimentações rápidas, transições táticas e cenários dinâmicos costumam chamar mais atenção do que práticas repetitivas voltadas para base técnica. Isso faz com que muitos operadores avancem para níveis mais sofisticados sem consolidar adequadamente os fundamentos essenciais.
Outro fator importante, ressaltado por Ernesto Kenji Igarashi, é o excesso de confiança gerado pela experiência. Profissionais que treinam há muitos anos frequentemente acreditam que determinados aspectos básicos já estão completamente dominados. O problema é que habilidade técnica sofre deterioração contínua quando não existe revisão constante dos fundamentos.
Quais fundamentos fazem mais diferença no desempenho real?
Um dos fundamentos mais negligenciados é o controle respiratório. Muitos operadores subestimam o impacto da respiração sobre estabilidade muscular, percepção visual e controle do disparo. Em situações de estresse, a respiração acelerada aumenta tremores, reduz clareza mental e compromete precisão de maneira significativa. Além disso, a falta de controle respiratório dificulta a recuperação rápida entre disparos e aumenta o desgaste físico ao longo do treinamento ou da operação. Operadores que dominam a respiração conseguem manter maior estabilidade emocional e melhor consistência técnica mesmo sob pressão elevada.

Outro ponto essencial é a empunhadura consistente. Pequenas variações na pressão das mãos alteram comportamento da arma durante o disparo e dificultam repetibilidade. Muitos profissionais acreditam que basta segurar com firmeza, mas a biomecânica correta depende de equilíbrio entre estabilidade e controle muscular sem excesso de tensão. Uma empunhadura inadequada também interfere na recuperação da visada após o disparo e compromete a velocidade de reacquisição do alvo. Quanto mais consistente for o posicionamento das mãos, maior será a previsibilidade da resposta da arma durante sequências de tiro, pontua Ernesto Kenji Igarashi.
A percepção visual também costuma ser mal trabalhada nos treinos básicos. Grande parte dos operadores aprende a mirar, mas poucos treinam verdadeiramente leitura visual sob pressão. O olho humano sofre alterações importantes em ambientes de tensão, e isso influencia foco, profundidade e capacidade de identificação rápida do alvo. Sob estresse intenso, o cérebro tende a reduzir percepção periférica e priorizar estímulos considerados mais urgentes, o que pode gerar erros de interpretação do cenário. Por isso, treinamentos modernos passaram a incluir exercícios voltados para percepção situacional e adaptação visual em ambientes complexos.
Como treinamentos modernos corrigem essas falhas?
Os treinamentos mais eficientes da atualidade passaram a tratar fundamentos básicos como elementos permanentes de aperfeiçoamento, e não apenas como etapas iniciais. Isso mudou completamente a forma como muitos instrutores estruturam práticas operacionais. Segundo Ernesto Kenji Igarashi, uma das principais mudanças está na qualidade da repetição. Em vez de realizar grande volume de disparos sem análise detalhada, operadores trabalham movimentos específicos de maneira controlada e consciente. O objetivo não é apenas atirar mais, mas construir padrões consistentes de execução.
Outro avanço importante envolve integração entre fundamentos técnicos e estresse operacional. Treinamentos modernos expõem operadores à pressão psicológica enquanto mantêm foco nos princípios básicos. Isso fortalece a capacidade de preservar técnica mesmo em ambientes caóticos.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez