A crescente demanda por informações sobre saúde feminina no Brasil não tem sido suficiente para reverter um dado que persiste com força nos registros oncológicos. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, médico com especialização em diagnóstico por imagem, examina esse fenômeno a partir da prática clínica e aponta que o diagnóstico tardio do câncer de mama não é resultado de um único fator, mas de um conjunto de barreiras que se sobrepõem e se reforçam mutuamente.
Uma parcela expressiva das mulheres diagnosticadas ainda chega ao sistema de saúde com a doença em estágio avançado, e compreender por que isso acontece é o primeiro passo para mudar esse cenário. Confira mais a seguir!
Por que o diagnóstico tardio persiste mesmo com o rastreamento disponível?
O acesso à mamografia cresceu nas últimas décadas, tanto pela rede pública quanto pelos planos de saúde, mas o alcance do rastreamento ainda é desigual e insuficiente para cobrir toda a população feminina elegível, menciona Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues. Regiões do interior e do Norte e Nordeste do Brasil têm cobertura significativamente menor do que os grandes centros urbanos, criando zonas de silêncio diagnóstico, onde tumores crescem sem vigilância por anos. Mesmo nas regiões com melhor infraestrutura, a periodicidade irregular dos exames é um problema frequente, visto que mulheres que realizam a mamografia uma vez e não retornam por três ou quatro anos perdem o benefício central do rastreamento contínuo, que é justamente a capacidade de detectar mudanças sutis antes que evoluam para estágios de pior prognóstico.
A desinformação que ainda cerca o câncer de mama em populações com menor acesso à educação em saúde também pesa nesse quadro, informa o Dr. Vinicius Rodrigues. A crença de que o exame só é necessário quando há sintomas, de que o câncer afeta apenas mulheres com histórico familiar ou de que a dor no seio é o primeiro sinal da doença leva muitas pacientes a procurar atendimento apenas quando o tumor já é palpável. Nesse cenário, a mamografia deixa de cumprir sua função preventiva e passa a ser um exame diagnóstico tardio, utilizado para confirmar o que a clínica já sinalizava, em vez de antecipar o que o corpo ainda não revelava.

O papel dos sistemas de saúde e dos profissionais na reversão desse quadro
A responsabilidade pelo diagnóstico tardio não recai exclusivamente sobre as pacientes. Falhas no sistema de referência e contrarreferência contribuem para que mulheres com resultados alterados na mamografia demorem semanas ou meses para conseguir avaliação especializada, período em que tumores malignos continuam sua progressão sem intervenção. A ausência de protocolos claros de seguimento em muitos serviços de saúde pública significa que mulheres com BI-RADS 4 ou 5 recebem o laudo, mas não recebem orientação objetiva sobre o que fazer a seguir, ficando à deriva em um sistema que falha justamente no momento mais crítico.
O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues sinaliza que médicos de família e clínicos gerais são frequentemente o primeiro ponto de contato da mulher com o sistema de saúde, e que a capacidade desses profissionais de identificar fatores de risco, orientar o início precoce do rastreamento e encaminhar com agilidade casos suspeitos é determinante para o estadiamento no diagnóstico. Dessa forma, fortalecer essa interface é uma das transformações estruturais mais necessárias para que o cenário do diagnóstico tardio mude de forma sustentável.
O que pode ser feito de forma concreta para mudar esse cenário?
Segundo Vinicius Rodrigues, a reversão do diagnóstico tardio exige ações simultâneas em diferentes frentes. Do ponto de vista estrutural, ampliar o número de mamógrafos em regiões de baixa cobertura e garantir manutenção regular dos equipamentos já existentes são medidas com impacto direto e mensurável. Programas de rastreamento organizado, nos quais as mulheres são convocadas ativamente com base em cadastros populacionais, têm desempenho significativamente superior ao rastreamento oportunístico, em que a mulher só realiza o exame quando busca espontaneamente o serviço de saúde.
O conjunto desses elementos indica que a solução para o diagnóstico tardio não está em uma única medida, mas na combinação de infraestrutura, educação e política pública. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, como médico radiologista, reforça que cada mulher que compreende a importância do rastreamento e o realiza com regularidade representa uma barreira efetiva contra esse problema, e que a informação de qualidade, disseminada por profissionais comprometidos com a saúde pública, é o insumo mais poderoso disponível para transformar uma realidade que ainda custa vidas que poderiam ser preservadas.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez