Sistemas legados: como saber se a reescrita é realmente mais cara que a manutenção?

Por Nils Vardalen 5 Min de leitura

Sistemas legados raramente dão problema por serem antigos, observa Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira, CTO do Grupo Carrefour Brasil. O incômodo aparece quando mudar uma regra simples exige semanas de verificação e ninguém explica por que certo cálculo funciona daquele jeito.

Na prática, o custo aparece na velocidade. Um time que precisa de três semanas para alterar uma alíquota entrega menos e erra mais, porque cada mudança vira exercício de arqueologia. A concorrência ajusta a mesma regra em uma tarde.

A pergunta que interessa, então, não é se o sistema é velho. É quanto custa mudá-lo. Essa conta decide entre manter, refatorar ou substituir, e costuma contrariar a intuição de quem olha apenas a data em que o projeto começou.

O que torna um sistema legado?

Existe código com vinte anos de operação rodando faturamento sem susto, com teste automatizado e gente que entende cada regra. E existe serviço de três anos que já assusta o time. Legado é o sistema do qual a operação depende e que ninguém altera com segurança.

O que envelhece de verdade é o conhecimento sobre ele. As pessoas que decidiram as regras saem, a documentação para de acompanhar as mudanças e o código vira a única especificação disponível. Daí em diante, alterar exige reconstituir a intenção original pelo comportamento observado.

O que uma reescrita completa cobra fora do orçamento?

O orçamento de uma reescrita estima o que é fácil estimar: telas, tabelas, integrações. Fica de fora a parte cara: recuperar regras de negócio nunca escritas. A exceção criada às pressas para um cliente grande está no código, e em nenhum manual.

Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira
Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira

Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira avalia que o obstáculo maior é o alvo móvel. Enquanto a equipe nova constrói, o negócio segue pedindo mudanças no sistema antigo, e congelar a evolução por dois anos não é opção. Sobram duas equipes escrevendo a mesma regra.

Equivalência funcional é a segunda armadilha. O sistema novo precisa reproduzir o comportamento observado do antigo, não o documentado, e a diferença aparece no fechamento do mês. Casos de borda esquecidos viram incidente, com o agravante de que o legado já foi desligado.

Como medir se compensa manter ou substituir?

A decisão fica simples quando a pergunta vira métrica: quanto custa mudar. Tempo entre o pedido do negócio e a entrega em produção, alterações que voltam com defeito e horas de teste manual dizem mais do que a linguagem do sistema.

Em sistemas grandes, uma fatia pequena concentra quase toda a dor: o módulo que muda toda semana e está acoplado ao banco de dados do resto. Por isso a medição vale por parte, nunca pelo conjunto. Cruzar frequência de alteração com acoplamento mostra onde investir primeiro.

Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira pontua que, ainda assim, um critério escapa das métricas. O executivo aponta a concentração de conhecimento em poucas pessoas como o risco menos medido e o mais caro. Quando duas ou três sustentam um sistema crítico, a escolha deixa de ser técnica e vira gestão de risco.

Como o legado encolhe sem parar a operação?

O padrão mais usado ficou conhecido como strangler fig, descrito por Martin Fowler a partir da figueira que envolve a árvore hospedeira até substituí-la. Uma fachada entra na frente do sistema antigo e decide, requisição a requisição, o que já vai para o módulo novo.

O ganho não é apenas de risco. Cada parte migrada entra em produção com a antiga ainda de pé, o que permite comparar as duas saídas com dados reais antes de desligar qualquer coisa. Testes que registram o comportamento atual tornam a comparação rotina.

O código antigo guarda a regra que ninguém escreveu

Tratar sistema legado só como dívida a ser quitada leva à decisão errada. Ele é também o registro mais fiel de como a empresa opera, incluindo acordos comerciais e exceções fiscais que nunca chegaram a um documento. Descartá-lo sem extrair esse conteúdo apaga memória operacional.

Manutenção deixa de ser o que sobra para quem não entrou no projeto novo. Quem conduziu viradas dessa natureza no varejo, como Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira, avalia manter sistemas em uso como competência tão exigente quanto construir do zero. É essa competência que define a velocidade da empresa.

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