Travas temporárias de resgate ajudam a evitar perdas em fundos estruturados, aponta Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM

Por Nils Vardalen 8 Min de leitura

Detalhadas em guia divulgado pela ANBIMA em fevereiro de 2026 e analisadas por Rodrigo Balassiano, as chamadas gates permitem que um fundo restrinja, de forma parcial e temporária, os pedidos de resgate de cotistas em momentos de turbulência, evitando a venda apressada de ativos a preços desfavoráveis

A ID CTVM acompanha a divulgação de orientações da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais voltadas a fortalecer a gestão de risco de liquidez de fundos de investimento brasileiros. Rodrigo Balassiano identifica, entre as ferramentas detalhadas nessas orientações, as barreiras temporárias de resgate, conhecidas no mercado pelo termo em inglês gates, como um mecanismo relevante para preservar o valor patrimonial de um fundo diante de pedidos de resgate concentrados em um curto intervalo de tempo.

Mecanismo limita resgates para evitar venda apressada de ativos

Uma barreira temporária de resgate consiste na restrição parcial, por prazo determinado, da capacidade de um fundo honrar integralmente pedidos de resgate recebidos em um mesmo período, aplicando um limite proporcional ao volume total solicitado por cotistas naquele momento. Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM, explica que esse mecanismo busca evitar que o administrador fiduciário seja forçado a vender ativos da carteira de forma apressada, e por isso a preços desfavoráveis, apenas para honrar um volume de resgates que excede a capacidade de liquidez normal do fundo em determinado momento.

“Quando um número elevado de cotistas solicita resgate ao mesmo tempo, geralmente em resposta a algum evento de estresse no mercado, o fundo pode se ver obrigado a vender ativos rapidamente, aceitando preços abaixo do valor justo apenas para gerar caixa suficiente. Isso prejudica não só quem está resgatando, mas também quem permanece investido, já que a venda apressada deprecia o valor da carteira remanescente. A barreira temporária de resgate evita essa espiral ao distribuir o atendimento das solicitações ao longo de um período mais razoável”, avalia o executivo.

Aplicação proporcional preserva a equidade entre cotistas

Rodrigo Balassiano destaca que, para preservar a equidade entre diferentes cotistas de um mesmo fundo, a aplicação de uma barreira de resgate costuma seguir um critério proporcional, no qual todos os pedidos recebidos em determinado período são parcialmente atendidos na mesma proporção, em vez de atender integralmente os primeiros pedidos recebidos e negar os últimos. Esse desenho evita que cotistas com acesso mais rápido à informação sobre um evento de estresse consigam sair integralmente da estrutura antes de outros investidores igualmente afetados pela mesma situação.

O guia da ANBIMA recomenda que os critérios de acionamento e de aplicação de uma barreira temporária de resgate estejam claramente definidos no regulamento do fundo desde sua constituição, incluindo os parâmetros objetivos que justificam o acionamento do mecanismo e o prazo máximo pelo qual a restrição pode permanecer em vigor.

Comunicação transparente reduz o impacto reputacional do mecanismo

Rodrigo Balassiano pondera que, apesar de sua função protetiva, o acionamento de uma barreira de resgate tende a gerar desconforto entre cotistas que buscam liquidez imediata, o que reforça a importância de uma comunicação clara e tempestiva por parte do administrador fiduciário sobre os motivos que levaram à ativação do mecanismo e sobre o cronograma esperado para sua eventual suspensão. Segundo o diretor, fundos que preveem esse mecanismo de forma transparente desde o início, incluindo exemplos práticos de sua aplicação no material de divulgação oferecido a potenciais investidores, tendem a enfrentar menor desgaste reputacional quando efetivamente precisam acionar a ferramenta em um momento de estresse real.

A ID CTVM, que administra fundos estruturados com diferentes perfis de liquidez, incorpora essas recomendações de transparência regulamentar em sua atuação junto a gestoras que avaliam a inclusão de barreiras de resgate no desenho de novas operações.

Ferramenta se soma a outros mecanismos de gestão de liquidez

As barreiras temporárias de resgate compõem, junto ao side pocket e a outras ferramentas detalhadas pelo guia da ANBIMA, um conjunto mais amplo de instrumentos à disposição de administradores fiduciários para lidar com diferentes tipos de evento de estresse de liquidez. Enquanto o side pocket isola um ativo específico da carteira, a barreira de resgate atua sobre o fluxo de saída de cotistas, o que faz com que os dois mecanismos, embora complementares, respondam a naturezas distintas de desafio de liquidez enfrentado por um fundo.

Fundos abertos concentram a maior parte dos casos de aplicação prática

Rodrigo Balassiano observa que, embora o conceito de barreira de resgate possa, em tese, se aplicar a diferentes tipos de estrutura, é entre fundos abertos, que oferecem liquidez diária ou de curto prazo ao cotista, que esse mecanismo encontra a aplicação prática mais relevante. Segundo o diretor, fundos fechados, como a maior parte dos FIDCs, já operam sob uma lógica de janelas de resgate previamente definidas em regulamento, o que reduz, por desenho, a necessidade de um mecanismo emergencial adicional voltado especificamente a conter picos repentinos de solicitação de saída.

Ainda assim, Rodrigo Balassiano pondera que a existência de uma barreira de resgate prevista em regulamento, mesmo que raramente acionada, funciona como um sinal de maturidade na estruturação de um fundo, ao demonstrar que o administrador fiduciário planejou, desde a origem da operação, como responder a cenários extremos de pressão sobre a liquidez da carteira.

Perspectivas para a resiliência de fundos diante de eventos de estresse

Com a indústria brasileira de fundos de investimento buscando alinhar suas práticas de gestão de liquidez a padrões internacionais, a tendência é que ferramentas como as barreiras temporárias de resgate ganhem espaço crescente na estruturação de novos fundos, sobretudo entre aqueles voltados ao investidor de varejo, público mais sensível a eventos de estresse de mercado. Rodrigo Balassiano avalia que administradores fiduciários capazes de operacionalizar esse tipo de mecanismo com transparência tendem a fortalecer a confiança de cotistas na resiliência dos fundos estruturados sob sua administração.

Sobre a ID CTVM

A ID CTVM é uma instituição especializada em infraestrutura para o mercado de capitais, com serviços de administração fiduciária, custódia, escrituração, controladoria e distribuição de fundos de investimento. Fundada em 2020, a companhia reúne atualmente mais de 550 fundos e mais de R$ 50 bilhões sob administração e custódia, com presença relevante em estruturas como FIDCs, FIPs e FIIs. Combinando tecnologia, governança, conhecimento regulatório e eficiência operacional, a ID oferece suporte a gestores, investidores, empresas e demais participantes do mercado, contribuindo para operações mais seguras, eficientes e transparentes.

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