Preservação da memória familiar: Tiago Oliva Schietti alude ao que o setor funerário tem a oferecer além do sepultamento

Por Diego Velázquez 6 Min de leitura

A memória de quem se foi não termina no momento do funeral, e Tiago Oliva Schietti, empresário do setor cemiterial e funerário, enxerga nessa continuidade uma das maiores oportunidades de reposicionamento que o mercado funerário brasileiro tem diante de si. Guardar, organizar e transmitir a história de uma vida são necessidades profundamente humanas, e cemitérios e funerárias que compreendem esse papel ampliam sua relevância muito além da prestação de serviços logísticos. 

Ao longo deste artigo, você vai entender como a cultura da memória está transformando a oferta do setor e o que isso significa para famílias e empresas.

Por que a memória precisa de um lugar?

Antropólogos e psicólogos do luto convergem em um ponto: rituais e espaços de memória cumprem funções essenciais no processo de elaboração da perda. Ter um lugar para voltar, um objeto que represente o ente querido ou um registro que preserve sua história ajuda os enlutados a manterem um vínculo simbólico com quem partiram, sem que esse vínculo impeça a reorganização da própria vida.

Conforme sinaliza Tiago Oliva Schietti, o cemitério sempre exerceu essa função de âncora simbólica, mas sua capacidade de fazê-lo foi historicamente limitada ao espaço físico do jazigo e à lápide. A ampliação desse repertório, por meio de novas formas de registro e homenagem, é o que define o conceito contemporâneo de memorialização, que vai da digitalização de acervos fotográficos à criação de perfis virtuais de homenagem acessíveis por qualquer dispositivo conectado.

Digitalização de histórias de vida

Uma das frentes mais concretas da memorialização contemporânea é a digitalização de histórias de vida. Plataformas especializadas permitem que famílias reúnam fotografias, cartas, vídeos, áudios e documentos em perfis digitais permanentes, organizados de forma cronológica ou temática e acessíveis a familiares em qualquer parte do mundo.

No cenário internacional, serviços como o StoryWorth, o Memoria e o próprio módulo memorial do aplicativo Google Photos já acumulam milhões de usuários ativos. No Brasil, iniciativas similares começam a ganhar tração, impulsionadas pelo crescimento do acesso à internet e pela digitalização acelerada dos acervos familiares durante e após a pandemia de Covid-19. Tiago Oliva Schietti observa que funerárias e cemitérios que oferecem esse tipo de serviço como parte do portfólio ampliam significativamente o valor percebido pelo cliente, que passa a enxergar a empresa não apenas como prestadora de serviços emergenciais, mas como parceira na preservação de algo insubstituível.

Tiago Oliva Schietti
Tiago Oliva Schietti

Objetos, espaços e rituais como suportes de memória

A memória não vive apenas no digital. Objetos físicos, espaços de visita e rituais periódicos continuam sendo suportes fundamentais para famílias de diferentes perfis culturais e geracionais. Urnas artesanais com design personalizado, medalhas com impressão digital do falecido, joias confeccionadas a partir de cinzas e placas de memória com QR codes que direcionam para perfis digitais são exemplos de produtos que integram o tangível e o virtual em uma experiência de memorialização mais rica.

Na avaliação de Tiago Oliva Schietti, o mercado brasileiro ainda explora de forma tímida esse segmento, que, em países como Japão, Alemanha e Estados Unidos, já movimenta cifras expressivas. A demanda existe, mas a oferta estruturada é escassa, o que representa uma lacuna de mercado clara para empresas dispostas a investir em curadoria, parcerias com artesãos e designers e desenvolvimento de produtos com identidade própria.

O papel dos cemitérios na preservação da memória coletiva

Além da memória individual e familiar, cemitérios são repositórios de memória coletiva. Personalidades históricas, episódios políticos, tragédias e conquistas de uma cidade ou de um país frequentemente têm no cemitério um registro material que as gerações seguintes podem visitar, estudar e ressignificar.

Tiago Oliva Schietti destaca que cemitérios que investem na catalogação e na divulgação de seu patrimônio histórico constroem uma dimensão cultural que fortalece seu vínculo com a comunidade e amplia sua relevância pública. Visitas guiadas, exposições fotográficas, publicações sobre personalidades sepultadas e parcerias com museus e arquivos públicos são iniciativas que transformam o cemitério em espaço vivo de cultura e educação, sem nenhum conflito com sua função funerária central.

Tecnologia e o futuro da memorialização

O horizonte da memorialização digital aponta para desenvolvimentos que até recentemente pertenciam ao campo da ficção científica. Ferramentas de inteligência artificial já permitem criar avatares digitais baseados em gravações de voz, fotografias e textos deixados por uma pessoa, gerando representações interativas que famílias podem consultar como forma de manter o vínculo simbólico com o falecido.

Conforme pondera Tiago Oliva Schietti, essas tecnologias levantam questões éticas complexas que o setor funerário precisará enfrentar com responsabilidade. O consentimento do falecido, a proteção de dados, o impacto psicológico sobre os enlutados e os limites entre preservação da memória e negação do luto são dimensões que exigem debate cuidadoso antes que essas ferramentas sejam incorporadas de forma irrefletida ao portfólio das empresas do setor.

Preservar a memória de quem se foi é, em última análise, uma forma de afirmar que aquela vida importou. Cemitérios e funerárias que assumem esse compromisso com seriedade ampliam sua missão, fortalecem sua reputação e constroem com as famílias um vínculo que nenhum concorrente consegue replicar apenas com eficiência operacional.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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